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A China está atropelando o Ocidente. Este livro mostra os riscos para o Brasil

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10 de ago.
5 min de leitura

Vasco Oliveira


O relógio passa das três da manhã e o barulho não para. Marteladas, caminhões, serras, britadeiras. É 2011, e no 37º andar de um prédio em Zhongguancun, um bairro que viraria o Vale do Silício de Pequim, um jovem brasileiro tenta dormir e não consegue.


Dias depois, entra em um canteiro de obras na própria rua, vê operários dormindo em contêineres e aprende o conceito da "cama sempre quente": um trabalha doze horas enquanto outro dorme na mesma cama. Quando o primeiro volta, o segundo levanta. Não havia tempo para a cama esfriar enquanto o PIB chinês crescia mais de 10% ao ano.


O insone do 37º andar é Ricardo Geromel, hoje um dos maiores especialistas em China do Brasil. Foi trader de commodities agrícolas em Hong Kong, empreendeu em Pequim em 2011, cobriu bilionários para a Forbes e escreveu o best-seller Bi.lio.nár.ios.


Em 2019, Geromel liderou uma imersão na China para os sócios de uma gestora brasileira. A viagem terminou com um convite para voltar ao Brasil, onde foi sócio do fundo entre 2020 e 2024.


Geromel é cofundador da FCGI, uma empresa que já levou mais de mil brasileiros para conhecer a China por dentro, em reuniões com líderes locais. Seu acesso raro aparece no recém-lançado O Novo Poder da China, que leva o leitor para dentro de salas de reunião com empresários e investidores. (Compre aqui)


Você pode não se interessar pela China, mas a China já se interessa por você. O Brasil foi o país que mais recebeu novos investimentos chineses em 2025. A China está na tomada da sua casa, no porto que escoa a nossa soja, no aplicativo, no carro do vizinho, no preço do vinho e, em breve, no seu diagnóstico médico. Seu concorrente talvez ainda não seja chinês, mas a régua do seu setor já é.


Geromel desafia o leitor a esquecer o PIB por um instante e olhar para a energia elétrica. O PIB chinês pode ser inflado por serviços intangíveis, bolhas financeiras e canetadas. Mas o consumo elétrico não mente. Energia elétrica é máquina ligada, forno aceso, data center processando, trem correndo, fábrica respirando.


Por essa régua, o mundo tem um novo líder absoluto. No ano 2000, a China produzia cerca de um terço da eletricidade gerada pelos

Estados Unidos. Em 2024, produzia quase duas vezes e meia mais. O país já consome mais eletricidade do que EUA, União Europeia e India somados.


O capítulo mais geopolítico do livro parte de uma frase dita em 2003 por Hu Jintao. Ele alertou que certas potências externas poderiam "estrangular as artérias energéticas da China".


A artéria tinha nome e endereço: o Estreito de Malaca. Por ali passam mais de 83% do petróleo importado pela China e dois terços de seu comércio. No ponto mais estreito, Malaca tem menos de 2,8 quilómetros de largura. Para Pequim, depender de Malaca é viver com a mão de um rival no pescoço.


A resposta chinesa foi tomar a bola. Como ensinava Johan Cruyff, se você tem a bola, o outro time não faz gol.


A posse de bola chinesa são os chamados new three: painéis solares, baterias de lítio e veículos elétricos. Cada placa solar é um barril a menos cruzando Malaca. Cada bateria é eletricidade deslocada no tempo. Cada carro elétrico é menos dependência do petróleo importado.


Em 2023, os painéis solares instalados na China já geravam o equivalente a 2,7 milhões de barris de petróleo por dia. Sem navio, sem estreito, sem risco de embargo.


Energia também é fundamental na era da AI. Os principais gargalos não são apenas modelos, chips e talentos, mas também energia abundante, barata e confiável. Sam Altman, CEO da OpenAl, já disse que "eventualmente, o custo da inteligência convergirá para o custo da energia. A abundância de Al será limitada pela abundância de energia."


Na China, a Al nasce como infraestrutura e o código aberto impera. Há uma razão histórica para isso: o modelo de Saas nunca vingou ali. O mercado americano educou empresas e consumidores a tratarem software como serviço recorrente, como uma conta de luz ou de água.


O ecossistema chines cresceu sob outra lógica, na qual o software vinha de brinde, embutido no hardware, ou era customizado e pago uma única vez. Quando chega a era dos LLMs, essa diferença vira destino.


Se você não consegue vender a lâmpada cara, você espalha a fiação. Abre o modelo, derruba o custo, busca virar padrão técnico e monetizar depois, onde a captura de valor é inevitável: infraestrutura, serviços, integrações, suporte.


Na saúde, o livro aponta para outro tsunami. Durante anos, a China foi sinônimo de genéricos e etapas terceirizadas para empresas ocidentais, o back office global do setor.


O conserto regulatório iniciado em 2015 ajuda a explicar a virada: o tempo para autorizar testes em humanos caiu de 501 para 87 dias, e a espera média para aprovar um novo medicamento despencou de 35 meses para onze.


Em 2024, sete grandes farmacêuticas globais pagaram US$ 31,5 bilhões para licenciar ou adquirir moléculas originárias da China. Geromel crava que você tomará remédio chines, talvez sem saber, porque o nome na caixa pode continuar ocidental.


No agro, Geromel acende o alarme para o Brasil. O setor é o pilar da solvência brasileira, mas depende de um dragão faminto. Em 2025, 65% do complexo soja exportado pelo Brasil foi para a China, e 73% da soja importada pelos chineses veio daqui.


Quando ouvem que a China é dependente do agro brasileiro, os chineses corrigem: não somos dependentes. Estamos. Ser é permanente. Estar é circunstancial. Pequim enxerga a situação atual como insustentável, um grave problema a ser administrado, reduzido ou redesenhado.


Em 2011, a China construía o futuro sem pedir desculpas pelo barulho. Quinze anos depois, parte desse barulho chegou ao nosso quintal. A cama segue quente - e este livro é um mapa para quem não quer ser pego dormindo.


Conheci Geromel na China. Eu precisava entender o que estava acontecendo no meu setor por lá e achava que a melhor maneira seria ir até o país e conversar olho no olho com os líderes das empresas mais relevantes. Mas como fazer isso em um lugar onde nem o LinkedIn funciona?


Vários amigos me recomendaram Geromel. Fui e levei quase 40 pessoas do meu time. Queria que vissem com os próprios olhos o futuro sendo construído naquela impressionante velocidade chinesa.


Em uma semana, fizemos mais de vinte reuniões com líderes locais, incluindo o Porto de Xangai, que sozinho movimenta mais contêineres do que todos os portos brasileiros somados.


Aquela viagem marcou a história da nossa empresa. Voltamos com uma nova percepção de escala e velocidade. Lançamos um produto inspirado no futuro que havíamos acabado de testemunhar e fechamos negócios com várias das companhias que visitamos.


Para preparar meu time, pedi que todos lessem O Poder da China, o primeiro livro de Geromel, de 2019. De lá pra cá, já o recomendei a mais de 100 CEOs, investidores e amigos. Mas este novo livro consegue ser ainda melhor.


Vasco Oliveira é fundador e CEO da NSTech e sócio da Tarpon.

 
 
 

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