Finíssimo Aposta: Farpa propõe quebra dos padrões de gênero

A primeira edição do Trending Clash, evento criado pelos estudantes de Design de Moda do Iesb para apresentar os trabalhos de conclusão de semestre ao público brasiliense, mostrou muitas coisas interessante em sua passarela, mas nada superou a marca Farpa, do recém-formado Pedro Hermano.  Como o próprio nome já diz, a etiqueta do jovem de 23 anos foi criada para espetar o conservadorismo e reacender o debate em torno dos padrões de gênero, o que foi feito com louvor.

 

Focada no público LGBTTI, a marca procura fornecer uma munição estética à classe, por meio de uma identidade visual bem-humorada, cínica, agressiva e feminina. Segundo seu idealizador, o objetivo é ferir o olhar conservador com o emprego de características e materiais típicos da moda feminina em peças masculinas. “A Farpa foi pensada para o público queer, do qual faço parte e percebo de perto o desejo por alternativas criativas, visualmente atrativas, que fujam da norma e combatam o pensamento padrão de gênero. Isso se dá por meio de roupas criadas para corpos tidos como masculinos, mas com uma estética mais próxima da feminina”, explica.

 

Para sua primeira coleção, por exemplo, o designer escolheu satirizar a Ditatura Gay, suposto movimento que, segundo a direita radical, visa a supremacia da comunidade LGBT no Brasil. “Procurei fazer uma paródia desse discurso, tão usado por opositores do movimento LGBTTI para deslegitimar a causa. Imaginei como seria a tomada de poder da comunidade e a instauração de uma ditadura gay. A coleção tem esse ar de combate, visto em malhas metalizadas que remetem a cotas de malha e coletes de vinil inspirados em armaduras, mas também busquei inspiração no fetichismo como retomada de poder do próprio corpo e na rebeldia do movimento punk como força propulsora, visto por exemplo em saias com sobreposição de xadrezes”, detalha.

 

Para o brasiliense de 23 anos, seu processo criativo está aberto às possibilidades, não tendo um ponto de partida específico. “Tento deixar as ideias correrem livremente. Às vezes a ideia de um look parte de um material interessante, Às vezes de um tema palpável, às vezes de ideias subjetivas. Tudo sempre com o público alvo em mente, mas levando em consideração também as tendências internacionais. O ponto mais importante e indispensável da criação, sempre, é a modelagem. Eu desenho e faço as peças piloto, para garantir que o produto seja o mesmo que idealizei, e depois produzo com costureiras locais”, conta.

 

Saiba mais sobre a marca e a relação do estilista com a moda nesse bate-papo que fizemos com ele:

Como começou sua relação com a moda?

 

Desde a adolescência, pelo menos é até onde me lembro, me interesso pela forma como a moda pode ser uma forma de expressão efetiva. Subjetiva, mas efetiva. Ver músicos, por exemplo, usando do vestuário para completar o significado de seu trabalho me fez entender que muito pode ser dito por meio da sua apresentação ao mundo. Eu fui percebendo ao longo do tempo, também, que além da expressão da sua individualidade e complemento da sua arte, a moda pode ser também ferramenta de contestação do status-quo, como os Sex Pistols faziam ao encarnar a rebeldia anárquica no seu visual punk, subvertendo a aparência normativa da classe média ao usarem roupas rasgadas, materiais sintéticos, estampas cínicas, perfurações na pele, cabelos coloridos e outras coisas. Então passei a tomar gosto por tudo aquilo na moda que foge da norma, que tem um propósito questionador e que se faz com as próprias mãos, a fim de conseguir me expressar genuinamente.

 

E a marca, quando você decidiu criar?

 

Sempre ficava chateado por não encontrar a mesma diversidade de produtos, estilos e informação de moda da moda feminina na masculina. Depois, quando entendi que um dos motivos desse fenômeno é justamente essa masculinidade restritiva, tóxica, frágil, que não permite qualquer desvio da heteronormatividade, passei a alimentar esse desejo de fazer uma moda masculina diferente, que abraçasse a feminilidade e conversasse com o público queer. Então comecei a cursar Design de Moda no IESB e juntei o útil ao agradável.

 

Você já foi drag queen. Essa vivência está presente na marca de alguma forma?

 

Com certeza! Drag é uma extrapolação do entendimento comum de gênero, uma paródia do que entendemos como masculino e feminino. Me fez entender que gênero não é inerente e natural, é performance, e me deu base para provocar a heteronormatividade. Quando fiz drag acabava tendo que criar peças ou adaptar peças femininas ao meu corpo, e sempre me preocupava com a proporção da silhueta. Então acabei descobrindo meios de efeminar a silhueta masculina e ao mesmo tempo criar visuais fora do comum, o que é hoje parte da identidade da Farpa.

 

Qual resposta você tem tido do consumidor brasiliense? Você acha que o tipo de peça que você cria será bem aceito aqui?

 

Ainda estou no início, tateando muito, e conhecendo melhor essa relação com o consumidor. Mas tenho percebido uma boa resposta do público. Eles entendem a proposta da marca, entendem as referências dos looks e da identidade visual empregada no editorial com a Committee, e isso me dá a sensação de que as coisas estão indo pelo caminho certo.

 

Onde as pessoas podem encontrar suas peças para comprar?

 

Por enquanto, no instagram da Farpa. Lá elas podem conferir o editorial da coleção, feito com o pessoal maravilhoso da Committee, e interagir com a gente também

 

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