Muito além do Tarifaço
A nova geopolítica do comércio internacional e os desafios para a indústria têxtil brasileira
O comércio mundial passou a ser moldado cada vez mais por decisões geopolíticas, políticas industriais e disputas estratégicas entre países. Nesse novo contexto, tarifas comerciais passam a integrar o conjunto permanente de instrumentos de política econômica.
As recentes medidas tarifárias anunciadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros ilustram essa mudança. Embora o debate tenha se concentrado nos impactos imediatos sobre as exportações, um grande desafio para a indústria também está na incerteza que esse novo ambiente produz. Empresas intensivas em capital, cadeias produtivas longas e contratos internacionais, dependem de previsibilidade para investir, contratar e ampliar capacidade produtiva. Quando as regras do comércio internacional passam a mudar com frequência, a incerteza torna-se, por si só, um custo econômico relevante. O setor de vestuário e calçados ficou de fora das exceções da tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras. A decisão atinge uma das cadeias produtivas mais complexas e integradas da indústria brasileira Muito além das em presas exportadoras, a cadeia têxtil o de confecção conecta produtores de fibras naturais e sintéticas, fiações, tecelagens, beneficiadoras, confecções, fabricantes de maquinas, operadores logísticos e o varejo. Por essa razão, uma retração das expor tações dificilmente permanece restrita ás empresas que comercializam diretamente com o mercado norte-americano. Seus efeitos tender a se disseminar ao longo de toda a cadeia produtiva, reduzindo em comendas, adiando investimentos e aumentando os riscos para o emprego a a renda em diversos da indústria.
Diversas entidades representativas já manifestaram preocupação com os efeitos das novas tarifas. Empresas dos segmentos têxtil, calçadista, de vestuário e de máquinas vêm alertando para o risco de redução da produção, perda de competitividade e possível diminuição do emprego. Esse movimento evidencia que o impacto das medidas comerciais ultrapassa o comércio exterior propriamente dito e alcança decisões de investimento e planejamento empresarial.
Os resultados obtidos em um exercício de equilíbrio geral computável (GTAP), desenvolvido pela GO Associados, reforçam essa percepção. A simulação indica que a nova rodada de tarifas pode reduzir o PIB brasileiro em aproximadamente 0,07% e diminuir as exportações em cerca de 0,31%. Embora o impacto agregado sobre a atividade econômica seja relativamente moderado, sua distribuição entre setores tende a ser bastante desigual, concentrando perdas justamente nas atividades mais expostas ao comércio internacional. Por outro lado, o modelo também aponta uma redução da inflação doméstica decorrente do redirecionamento de parte da produção para o mercado interno. Esse resultado, entretanto, não deve ser interpretado como um benefício econômico. Trata-se de um efeito colateral de um choque negativo sobre as exportações, que amplia a oferta doméstica porque parte da produção deixa de encontrar mercado externo.
Essa distinção é importante porque indicadores macroeconômicos agregados frequentemente escondem a intensidade dos impactos setoriais. Uma variação relativamente pequena do PIB nacional pode representar perdas expressivas para segmentos específicos, sobretudo aqueles mais integrados às cadeias globais de valor. No caso da indústria têxtil, cuja competitividade depende de escala, eficiência operacional e planejamento de longo prazo, alterações nas condições de acesso aos mercados internacionais tendem a produzir efeitos desproporcionais sobre margens de lucro, utilização da capacidade instalada e decisões de investimento.
Existe ainda uma segunda dimensão que merece atenção e que, frequentemente, recebe menos destaque no debate público: o efeito da própria incerteza comercial. Estudos econométricos da GO Associados indicam que episódios de aumento da incerteza relacionada ao comércio internacional tendem a afetar a economia brasileira principalmente por meio da taxa de câmbio. Em outras palavras, mesmo antes da implementação efetiva de novas tarifas, a percepção de risco pode provocar desvalorização cambial, elevar custos de produção e dificultar o planejamento das empresas. Para uma indústria que depende de insumos importados, máquinas, equipamentos e financiamento de longo prazo, esse canal pode ser tão relevante quanto o impacto direto das tarifas sobre as exportações.
Ao mesmo tempo, esse novo cenário reforça a necessidade de repensar estratégias competitivas. Diversificar mercados de exportação, ampliar acordos comerciais, investir em inovação, digitalização, rastreabilidade, sustentabilidade e diferenciação de produtos deixa de ser apenas uma agenda de modernização para tornar-se um elemento central de gestão de riscos. Empresas que conseguirem reduzir sua dependência de um número limitado de mercados e incorporar maior valor agregado aos seus produtos estarão mais preparadas para enfrentar um ambiente internacional caracterizado por crescente volatilidade.
A geopolítica voltou a ocupar posição central nas decisões econômicas globais. O comércio internacional passa por uma transformação estrutural na qual previsibilidade, estabilidade regulatória e diversificação de mercados tornam-se ativos tão importantes quanto produtividade e eficiência operacional.
O desafio deixou de ser apenas produzir melhor. O verdadeiro diferencial competitivo será construir resiliência diante de um ambiente internacional em que choques geopolíticos, políticas industriais e barreiras comerciais tendem a fazer parte do novo normal.
No Cenário em que se supõe que os EUA removam a tarifa universal de 10% (Seção 122) cuja expiração é esperada para 24/07

Professor da FGV EAESP e Sócio da GO Associados

Economista e Coordenador de Projetos de Infraestrutura e Métodos Quantitativos na GO Associados

Economista e Coordenador de Governança Corporativa na GO Associados

Economista e consultora na GO Associados

Economista e consultora na GO Associados

Economista e consultora na GO Associados




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